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Literatura para crianças

Coluna da Viviane [Texto 12]

Durante algumas semanas, vou abordar, no Professores transformadores, livros endereçados às crianças. O objetivo é apresentar títulos que possam compor um pequeno acervo com livros que tenham qualidades literárias, auxiliando as escolhas dos professores.

A produção de livros para crianças vem ganhando o mercado brasileiro há algumas décadas. As editoras têm investido no projeto gráfico, editorial e literário, reconhecendo as crianças como leitores exigentes. É possível identificar projetos tão bem articulados entre as obras voltadas para o público infantil capazes de seduzirem até mesmo os adultos. 

Como exemplo de projeto gráfico bem articulado com o literário ressalto a obra O livro com um buraco, de Hervé Tullet, editora Cosac Naify. Como o nome diz, possui um buraco que começa na capa e continua no conjunto de páginas. Quando aberto, aparece um buraco no centro das páginas. Para dar forma às pequenas narrativas que compõem a obra, é necessário que o leitor entre em cena a partir do buraco.

Há um apelo para a interação direta do leitor com o livro. A obra promove um envolvimento de maneira particularmente criativa para a criança pequena. Para ler é preciso manuseá-lo, descobrindo as sutilezas de seu projeto gráfico. O texto verbal e o imagético criam situações de nonsense, onde a criança é interpelada e motivada a dinamizar sua imaginação, suprindo as lacunas das pequenas narrativas.

Desse modo, o buraco é o lugar por onde a criança é inserida no livro/leitura. O espaço vazio do/no livro parece encenar as próprias lacunas por onde o leitor constrói sentidos para o texto, neste caso, com o próprio corpo. Desse modo, o buraco é o espaço por onde o sujeito pode se constituir como leitor, ou o leitor, enquanto completa as cenas ilustradas nas páginas, constrói sua identidade.

O livro com um buraco tem um formato grande, com a cor vermelha predominando na capa, chamando a atenção do leitor. Dando forma ao buraco que aparece na capa, existe a imagem de uma cabeça com uma grande boca aberta. A resenha da quarta capa tem um tom divertido e instigante. Nela, encontramos jogos de sentidos como “Atenção: Este livro contém um buraco – que não pode ser vendido separadamente”. Aguçando a imaginação, o texto provoca: “Você pode usar o buraco como lente de aumento para observar os insetos, piscina para mergulhar, pista de corrida cheia de obstáculos e até uma ilha tropical!” Em referência ao potencial do buraco, o texto da resenha explora a inventividade que pode ser ocasionada pelas possibilidades de criar alguma coisa dentro da fenda do livro: “O buraco pode ser a boca de um monstro horripilante para você fazer os dentes afiados com os dedos, rrraaahh! [...] As possibilidades são infinitas. Só não vale cair dentro do buraco!”.

Os recursos visuais da capa e o texto sedutor da quarta capa já capturam o leitor nos primeiros contatos, significando que a leitura da obra se inicia já em elementos pré-textuais. Este é um diferencial na produção literária para a criança, já que a provocação para os sentidos inicia-se nos primeiros contatos com o livro.

Ao abordar o livro sob o aspecto de um projeto articulado tenho como intenção desconstruir práticas que elegem livros sem qualidade para a sala de aula. Conhecendo critérios que orientam as escolhas literárias, espera-se que o professor escolha livros que respeitem a capacidade intelectual, criativa e emocional da criança.

(Viviane Maia é graduada em Letras, tem mestrado em Literaturas de Língua Portuguesa e, atualmente, está no doutorado na mesma área, cuja temática de investigação é a literatura indígena. Compõe a Gerência de Coordenação da Educação Infantil e Núcleo de Relações Étnico-Raciais, da Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte.)

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